É possível comer de uma forma que seja boa para a nossa saúde e, ao mesmo tempo, cause menos impacto sobre o planeta?

Essa é a proposta por trás da dieta planetária, um padrão alimentar desenvolvido para aproximar dois objetivos que muitas vezes são discutidos separadamente: promover a saúde humana e reduzir os impactos ambientais do sistema alimentar.

Uma revisão científica publicada em 2026 avaliou 227 estudos sobre a dieta EAT-Lancet e encontrou associações com melhores desfechos de saúde e menor emissão de gases de efeito estufa. Ao mesmo tempo, identificou limitações relacionadas à adequação de alguns nutrientes e à acessibilidade econômica da dieta.

Por isso, a pergunta é: Como podemos incorporar alguns princípios da dieta planetária de uma maneira saudável, sustentável e possível de manter?

O que é a dieta planetária?

A dieta planetária, também chamada de dieta da EAT-Lancet ou Planetary Health Diet, foi proposta em 2019 pela Comissão EAT-Lancet, uma iniciativa científica global que reúne dezenas de especialistas de diversas áreas para propor caminhos que garantam uma alimentação saudável para a população mundial sem esgotar os recursos da Terra.

De maneira geral, trata-se de um padrão alimentar predominantemente baseado em alimentos de origem vegetal, com maior participação de:

  • verduras e legumes;
  • frutas;
  • leguminosas, como feijão, lentilha, ervilha e grão-de-bico;
  • cereais integrais;
  • castanhas e sementes;
  • fontes de gorduras predominantemente insaturadas.

Ao mesmo tempo, propõe menor consumo de alguns alimentos, especialmente carnes vermelhas, gorduras de origem animal e açúcares adicionados.

O objetivo não é simplesmente definir alimentos “permitidos e proibidos”, mas pensar no padrão alimentar como um todo e em como ele pode contribuir para a saúde e reduzir parte da pressão da produção de alimentos sobre o meio ambiente.

Dieta planetária significa ser vegano?

Não. Esse é um dos maiores equívocos quando falamos sobre dieta planetária.

A proposta da EAT-Lancet é predominantemente vegetal, mas não exige a eliminação completa dos alimentos de origem animal. A questão está muito mais relacionada às proporções e ao padrão alimentar.

Isso é especialmente relevante quando falamos sobre carne.

“Será que preciso consumir tanta carne quanto consumo atualmente?”

Reduzir a frequência ou a quantidade de carne e aumentar a participação de alimentos vegetais pode ser uma estratégia para aproximar a alimentação de um padrão mais saudável e ambientalmente favorável.

Não é preciso transformar a alimentação inteira de um dia para o outro.

Quais são os benefícios da dieta planetária para a saúde?

A maior adesão à dieta EAT-Lancet esteve associada a:

  • 20% menor risco de mortalidade por todas as causas;
  • 17% menor risco de doença cardiovascular (a causa de morte número 1, globalmente);
  • menor risco de diabetes tipo 2.

A maior parte das evidências disponíveis é observacional. Isso significa que os estudos identificam associações entre padrões alimentares e desfechos de saúde, mas não permitem afirmar que seguir a dieta planetária, isoladamente, seja a causa direta desses resultados.

Ainda assim, maior presença de vegetais, frutas, leguminosas, cereais integrais e castanhas pode contribuir para uma alimentação mais rica em fibras e outros nutrientes, enquanto a redução de determinados alimentos pode melhorar a qualidade global da dieta.

E o impacto da dieta planetária no meio ambiente?

A alimentação também está relacionada ao uso de recursos naturais e às emissões de gases de efeito estufa. Na revisão de 2026, a adesão à dieta EAT-Lancet esteve associada a uma redução considerável nas emissões desses gases.

Ou seja, os dados mostram que padrões alimentares com maior participação de alimentos vegetais e menor consumo de determinados alimentos de origem animal podem contribuir para reduzir parte da pressão ambiental associada ao sistema alimentar.

A indústria agropecuária (criação de animais) é a segunda maior emissora de gases de efeito estufa do mundo. Além da agropecuária, o sistema alimentar ainda está envolvido em outros setores emissores, como transporte e uso da terra.

Mais aderência, menos perfeição

Não precisamos pensar em alimentação como tudo ou nada.

Na prática, é possível começar incluindo mais vegetais, substituindo algumas refeições com carne por preparações à base de leguminosas, variando as fontes de proteína ou reduzindo gradualmente o consumo de determinados alimentos.

Uma alimentação não precisa ser perfeita para ser melhor. A mudança que você consegue manter por anos pode ser muito mais relevante do que uma mudança perfeita que dura algumas semanas.

A dieta planetária precisa ser adaptada à cultura e à realidade local

Alimentação também é cultura. O que colocamos no prato depende de disponibilidade, preço, preferências, hábitos familiares e rotina.

O arroz com feijão é um bom exemplo de como podemos partir da nossa própria cultura alimentar. Em vez de abandonar tradições, podemos reconhecer o que funciona e fazer ajustes onde eles realmente fazem sentido. Nesse artigo eu exploro um pouco mais o valor do nosso arroz e feijão.

Uma alimentação sustentável também precisa ser culturalmente possível e financeiramente viável.

Quais são as limitações da dieta planetária?

Apesar dos resultados positivos, a própria revisão de 2026 identificou possíveis inadequações nutricionais importantes. Na média global analisada, o padrão EAT-Lancet poderia levar a menores ingestões de:

  • vitamina B12;
  • cálcio;
  • ferro;
  • zinco.

Isso porque nos condicionamos a obter certos nutrientes apenas de alimentos de origem animal. Uma alimentação predominantemente vegetal pode ser adequada, mas a qualidade e a composição da dieta importam. Retirar carne, por exemplo, não garante automaticamente uma alimentação saudável. É preciso considerar o que entra no lugar dela e as necessidades individuais.

Aqui, um acompanhamento nutricional pode te dar mais segurança e fazer toda a diferença para seus hábitos alimentares.

Existe ainda uma questão de acesso: os autores estimaram que, globalmente, entre 1,6 e 3 bilhões de pessoas não teriam condições de arcar com o custo da dieta EAT-Lancet.

Isso mostra que sustentabilidade não pode ser discutida apenas como uma questão de escolha individual. Uma alimentação só é realmente sustentável quando também é possível para as pessoas.

Como aplicar os princípios da dieta planetária na vida real?

Você não precisa começar criando uma dieta completamente nova. Algumas possibilidades são:

1. Aumente a variedade de vegetais
Inclua diferentes verduras, legumes, frutas e outros alimentos vegetais ao longo da semana.

2. Dê mais espaço às leguminosas
Feijão, lentilha, ervilha e grão-de-bico podem contribuir para uma alimentação rica em fibras e proteínas vegetais.

3. Varie as fontes de proteína
Carne não precisa ser a única protagonista das refeições. Leguminosas, ovos, peixes, laticínios, castanhas e outras fontes podem fazer parte de uma alimentação variada.

4. Se quiser reduzir carne, comece de onde for possível
Pode ser reduzindo a frequência, diminuindo a porção ou escolhendo algumas refeições da semana sem carne.

5. Considere a sua realidade
Uma mudança alimentar precisa caber no seu orçamento, na sua rotina, na sua cultura e no seu estilo de vida.

Dieta planetária: é preciso mudar tudo para fazer diferença?

Não.

Você não precisa ser vegano. Não precisa eliminar completamente a carne. E não precisa fazer tudo de uma vez. Talvez a pergunta mais útil seja:

“O que eu consigo mudar na minha alimentação que seja melhor para mim, melhor para o planeta e possível de manter?”

Referências

ZHU, Ruixin et al. The Health and Environmental Impacts, Safety, and Affordability of the EAT-Lancet Planetary Health Diet: A Multidisciplinary Systematic Review and Meta-Analysis. Advances in Nutrition, 2026.

KHUC, Thi Hong Hanh et al. Beyond binary comparisons: A Bayesian dose–response meta-analysis of adherence to the planetary health diet and risks of all-cause mortality and cardiovascular outcomes in adults. Preventive Medicine, 2026.

ROCKSTRÖM, Johan et al. The EAT-Lancet Commission on healthy, sustainable, and just food systems. The Lancet, 2025.

https://sustentarea.fsp.usp.br/2019/05/20/dieta-planetaria