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O estudo que sustentou o uso do glifosato por décadas

Publicada em 2000, a revisão bibliográfica “Safety Evaluation and Risk Assessment of the Herbicide Roundup and Its Active Ingredient, Glyphosate, for Humans” afirmava que o glifosato não apresentava riscos à saúde humana.

O glifosato é um herbicida comercializado principalmente pela Bayer, que adquiriu a Monsanto em 2019, e atua no controle da infestação de plantas daninhas. Tais infestações podem comprometer o cultivo de plantas como soja, algodão e milho.

Após 25 anos de influência, o estudo foi despublicado devido a conclusões duvidosas e à falta de critérios rigorosos para a credibilidade das informações.

E agora, quais consequências ficaram para contar essa história?

O que o estudo dizia e por que passou a ser questionado

O estudo, citado milhares de vezes na National Library of Medicine, um arquivo utilizado como fonte de referência para pesquisas científicas, concluiu que o glifosato não é cancerígeno, além de não representar riscos à fertilidade.

No entanto, a veracidade dessas afirmações passou a ser questionada diante de diversos processos judiciais contra a Bayer, que alegam o desenvolvimento de câncer em indivíduos expostos ao herbicida. Além disso, outros estudos reputáveis realizados posteriormente à publicação da revisão também apontam riscos à saúde, os quais são validados e divulgados pela International Agency for Research on Cancer (IARC).

Falhas científicas e conflito de interesses

A falta de ética e integridade, entre outros fatores, evidencia critérios científicos ausentes na revisão bibliográfica em questão, tornando sua publicação, no ano 2000, questionável.

Metodologia de trabalho, revisão de literatura e coleta de dados são aspectos fundamentais, porém não foram esclarecidos e/ou apresentados no estudo publicado na revista científica. Esses, entre outros fatores, contribuíram para a descredibilização do estudo.

Pesquisas conduzidas pela própria Bayer foram utilizadas como fonte, além da participação não explícita de funcionários da empresa no estudo, demonstrando falta de transparência e conflito de interesses em relação às conclusões apresentadas.

Além disso, diversas referências citadas no estudo também são questionáveis, pois não foram devidamente revisadas por outros autores, um procedimento essencial para a confiabilidade científica.

Impactos globais: agricultura, saúde e economia

Durante 25 anos, o artigo serviu como base para a autorização do uso do glifosato em diversos países, inclusive no Brasil, que hoje é um dos principais produtores de soja do mundo, com monoculturas diretamente ligadas ao desmatamento da floresta Amazônica.

Nesse período, o glifosato tornou-se o herbicida mais utilizado globalmente. Ou seja, por 25 anos, o produto garantiu faturamento para a Bayer e outras empresas relacionadas direta e indiretamente ao herbicida.

Foram necessárias mais de 200 mil ações judiciais movidas contra a Monsanto e a Bayer para a reavaliação e despublicação desse estudo em 2025. Os autores de todos os processos alegam ter desenvolvido linfoma não Hodgkin e outros tipos de câncer após o uso do herbicida.

Além disso, indenizações milionárias já foram pagas pela Monsanto.

O que isso tem a ver com o trigo que você consome?

Dados do PARA (Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos) mostram que alimentos como arroz e, principalmente, o trigo estão entre os que apresentam maior contaminação por glifosato.

Ou seja: o consumo cotidiano desses alimentos pode representar uma fonte constante de exposição ao herbicida.

A principal forma de reduzir essa ingestão é optar por alimentos orgânicos, que não utilizam pesticidas sintéticos.

Além disso, estudos sugerem que agrotóxicos podem impactar o equilíbrio da microbiota intestinal, um tema cada vez mais relevante na nutrição funcional.

Veja aqui mais dados sobre a análise do PARA.

Impactos à saúde, sociedade e economia

O risco direto aos agricultores e indireto à população das regiões onde o herbicida é utilizado, além do risco ao consumidor final ao ingerir produtos agrícolas contaminados, gera um prejuízo difícil de mensurar: à saúde pública, às famílias afetadas e aos ecossistemas.

Enquanto isso, setores como a indústria farmacêutica, alimentícia e a saúde privada lucram.

Vale a pena escolher orgânicos?

Optar por trigo orgânico e outros alimentos livres de agrotóxicos não é apenas uma escolha alimentar, é uma decisão sobre exposição a substâncias químicas, impacto ambiental e saúde a longo prazo.

Pequenas escolhas diárias têm efeitos cumulativos.

E entender como esse sistema funciona é o primeiro passo.

Entendeu como essa roda gira?

Fontes

https://www.bbc.com/portuguese/articles/clymlk6ge1ko
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0273230099913715?via=ihub
https://g1.globo.com/economia/agronegocios/noticia/2026/02/19/o-acordo-bilionario-da-bayer-para-indenizar-usuarios-do-glifosato.ghtml
https://www.scielo.br/j/rpc/a/NDm6KsMqmjHHKJZDwNzbpkG/?format=html&lang=pt