Terça e sábado é dia de feira orgânica aqui no bairro. Para minha surpresa, às 9 da manhã o morango já havia acabado. Logo surgiu o papo do “morango do amor” e me surpreendi quando soube o preço da fruta convencional no CEAGESP. “A gente sempre consulta os preços do mercado para ficar informado”, disse a feirante.
- Em julho, custava R$ 23,70, tendo chegado até R$ 42,77/kg durante o período da febre do “morango do amor”.
- No final de agosto, estava a R$ 14,20/kg, estando entre as principais quedas dos produtos agrícolas, segundo a CEAGESP.
- Hoje, o morango comum custa R$ 14,88/kg.

O preço variou drasticamente entre os meses de julho e setembro, impactado pelo período de safra e, principalmente, pela febre do “morango do amor”. Segundo a CNN e o G1, um único morango do amor chegou a custar mais de R$ 20, enquanto a bandejinha orgânica de aproximadamente 300 g custa R$ 13 aqui no bairro.
Além do apelo visual e experiência gustativa do morango do amor, a influência externa — amigos, mídia, barraquinha de doce — também bagunçou o mercado agrícola. Procura por morangos em alta e o Brasil inteiro envolvido na febre. O morango do amor foi polêmico — custo altíssimo, valor nutricional duvidoso e ultra palatável.
E a pergunta que ficou no ar… Será que vale a pena?
O que guia nossas escolhas alimentares?
O que nos leva a pagar R$ 20 por um único morango do amor? Valor claramente desproporcional, comparado ao preço da fruta in natura e quando podemos comprar uma bandejinha inteira, ou melhor ainda, uma bandejinha de morangos orgânicos.
Quase tudo influencia nossas escolhas alimentares, alguns fatores mais do que outros. Nosso sistema de valores é determinante. Contextos sociais, ambientais e políticos, respostas cognitivas e fisiológicas e aprendizados de cada um formam esse sistema, entre outros fatores. Todos envolvem cenários antecedentes e consequências, ambos relacionados à comida. Além disso, características da comida também são importantes. Dentre elas, estão o preço, a disponibilidade, a aparência, o cheiro, textura, mas a característica mais relevante na hora da escolha é o sabor. Ou seja, escolher um alimento vai muito além da questão querer ou não querer.
O próprio hype na mídia foi uma influência do contexto social que facilitou o consumo do morango do amor entre muitos grupos. Quem não se deparou com um morango do amor em certo ponto? Na internet ou ao vivo. A escolha em si, entre consumir ou não, é somente um fator, seguida por uma série de influências.
Em se tratando da influência social, nossas escolhas são amplamente mediadas pela dopamina, um mensageiro químico do nosso organismo, que aumenta quando há expectativa em receber uma recompensa. É justamente esse mecanismo que nos faz consumir certos alimentos. A dopamina está ligada à motivação, recompensa e prazer (além do vício a substâncias). A relação da dopamina com a alimentação é um tema curioso, além de complexo, mas esse é assunto para outra conversa.
O peso das influências sociais
Influências sociais e nossas respostas cognitivas caminham juntas. Um grupo, marca ou entidade de relevância, um almoço em família ou no trabalho, as comparações e o Fear Of Missing Out são parte de contextos sociais que colocam nossos valores a prova. Todos exercem certa pressão sobre nossas escolhas. Dentre as influências sociais também estão políticas públicas. Elas podem e devem ser utilizadas estrategicamente, especialmente quando se trata de alimentação e saúde, já que podem modelar condutas saudáveis tanto quanto não saudáveis.
Morango do amor x morango orgânico
Morango orgânico é rico em antioxidantes, fibras e, principalmente, livre de agrotóxicos prejudiciais à saúde. Entre outras, estas são características da comida que também exercem influência sob certos grupos, àqueles que enxergam valor nesses benefícios. Porém, o apelo visual e gustativo são fracos, comparados ao efeito do morango do amor. Apesar dos benefícios a longo prazo serem consideravelmente melhores, tanto para quem consome como para a terra, o consumo dos produtos orgânicos não é significativamente estimulado. Mesmo havendo um aumento de 75% no cadastro de produtores de orgânicos no país de 2017 a 2022, esses produtos não são encontrados em muitos mercados.
O preço é outra característica considerada para a escolha alimentar. A justificativa para o preço mais elevado dos produtos orgânicos é justamente a ausência de agrotóxicos, que encarece a mão de obra e exige produção em menor escala. Porém, há dados apontando que nem sempre o convencional é mais barato. Você checa e compara os preços?
Tanto o morango do amor quanto o morango orgânico são caros. A diferença é que um virou trend, o outro não.
O consumo alimentar é um tema complexo. Há uma série de envolvidos e interesses — político, financeiro, social e por aí vai. Todos interferem em nossas escolhas. A quem cabe, então, interferir positivamente em nossos hábitos?
Quem pode mudar o jogo na construção de influências e hábitos?
Profissionais de saúde devem ser figuras de referência. Não é possível somente falar do que é melhor consumir, é preciso influenciar escolhas. A propaganda e o marketing de alimentos, por sinal, tem como objetivo induzir suas escolhas, mas nem sempre são confiáveis. Iniciativas do governo, como políticas públicas, também podem influenciar o preço, regras e disseminar informação, colaborando com suas escolhas. Não se trata de restringir ou controlar, mas em agir com atenção ao bem coletivo, acima de interesses.
E agora, você acha que o morango do amor foi tudo isso mesmo? Se o hype não funcionou com você, te convido a se observar em contextos nos quais o consumo de alimentos é influenciado por fatores externos — no mercado, restaurante, sites de compra, redes sociais.
O quê você quer comer e de onde vem a sua vontade?


