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See you later, Tio Sam. Cheguei ao Brasil, terra do arroz e feijão, do samba, da mandioca, do açaí. Quando eu pensava no Brasil, muitas vezes significava pensar em comida. Elas carregam lembranças da infância, gostinho de saudade, representam família e amigos queridos. E quando eu penso nos Estados Unidos, o que vem na memória? Além de trabalho duro, clássica situação para imigrantes, também vem saudade. Sim, dos Estados Unidos, mas também da saudade que eu sentia do Brasil, da minha cultura, comida, música, paisagens e família.

Digo que viver a vida lá fora, do meu ponto de vista, é tão gostoso quanto difícil. E é MUITO GOSTOSO. Tudo é novo, diferente, interessante, desafiador. Até uma simples ida ao mercado não é tão simples quanto parece.

Do arroz e feijão ao purê instantâneo

As prateleiras das lojas são irreconhecíveis. As cores, os rótulos, os produtos, suas embalagens, fileiras e fileiras de opções. Levei um tempo para me familiarizar com tanta informação. Uma das experiências que mais me marcou em relação à comida, foi a primeira vez que comi purê de batata nos Estados Unidos.

Basicamente, pronto em instantes, basta abrir um saco e despejar o farelo amarelado em uma panela com um pouco de leite quente. Mexa por alguns minutos e pronto, o purê de batata está servido! 

Eu nunca tinha visto nada do tipo e ao mesmo tempo que achei incrível, também achei um absurdo – como assim, o purê de batata não foi feito com batata? Em defesa à pessoa que preparou a refeição, essa foi a maneira que ela havia sido criada, à base de comida barata e ultraprocessada. A praticidade dos ultraprocessados chega a ser assustadora. Até uma criança, cuja mãe trabalha o dia inteiro, é capaz de prepará-las. Foi o caso do meu amigo.

Que sorte a minha, crescer em uma família onde as refeições são uma parte importante da criação, hábitos e cultura, onde muitas mãos preparam um banquete para alimentar quantas bocas forem necessárias. Apesar de ter sido criada sem luxos materiais, hoje entendo que o que vivi na infância, e ainda vivo, foi sim um luxo – valorizar as refeições e ter comida de verdade no prato. Quando comparo minhas experiências às do meu amigo na terra do Tio Sam, existe um abismo entre nossos hábitos alimentares. Claro, há cenários diferentes, mas posso dizer que essa era a verdade ao meu redor.

Cultura da conveniência x comida de verdade

De volta ao Brasil, depois de uma imersão intensa em outra cultura, realizei o quanto é rica e farta a nossa alimentação, a começar pelo arroz e feijão, uma das refeições mais nutritivas do mundo, segundo a ONU e a minha avó. Tem arroz e feijão praticamente todos os dias na maioria dos estados brasileiros. Graças à cultura mexicana, tão presente nos Estados Unidos, essa mistura também é facilmente encontrada lá, mas certamente não muito valorizada. Então o que é valorizado? 

Em um país onde existe diversidade cultural, como nos Estados Unidos, também há diversidade gastronômica. Encontra-se de tudo! Mas o principal ingrediente em comum, arrisco dizer que é a conveniência. Isso se traduz em dezenas de estabelecimentos “fast-food”, em muitas refeições feitas em restaurantes ou compradas “to-go”, em comidas preparadas no microondas, ou até mesmo em refeições não feitas, ou substituídas por “shakes” e barrinhas proteicas. A cultura “workaholic” não deixa espaço pro horário de almoço, então nos resta comer no caminho para casa, sozinhos em frente ao computador, ou rapidinho entre um compromisso e outro. Essa também foi a minha realidade por alguns anos!

Conveniência x saúde

As comidas convenientes combinam com esse estilo de vida, e compensam a falta de uma refeição de verdade com excesso de sabor, calorias e outros ingredientes polêmicos. Entretanto, não cumprem certas funções emocionais e fisiológicas que um arroz e feijão cumpriria.

Por outro lado, existe sim a preocupação com a saúde e alimentação, mas que também acaba se traduzindo em ultraprocessados, como o “diet”, “no sugar”, “keto”,  “all natural”, “low-fat”, “plant-based”, “fit” e o que quer que faça o consumidor acreditar que está fazendo opções boas, convenientes e que tragam resultados rápidos, geralmente atrelados ao peso ou emoção. Nada disso é comida de verdade do jeito que o arroz e feijão é. Comida de verdade tem a capacidade de proporcionar tudo que os ultraprocessados prometem e muito mais, além do real valor nutricional.

De volta ao Brasil: o que precisamos valorizar

Tristemente, estamos herdando hábitos americanos. Os ultraprocessados estão cada vez mais presentes (oi whey protein de chocolate), mas percebo um cenário diferente no Brasil. Esses produtos não são acessíveis financeiramente, ou seja, quem pode, compra e quem não pode, acaba investindo no que não vale a pena. A maioria é fisgada pelo marketing “low-carb”, “high-protein”, etc, e super valoriza o que vem de fora, sem entender que o que temos na nossa mesa traz mais benefícios, especialmente a longo prazo.

As dinâmicas de alimentação são bem distintas entre os Estados Unidos e o Brasil, onde conveniência e cultura são dois fatores de peso. Quase metade da população norte americana é considerada obesa, um dado que vem crescendo no Brasil também. Nós precisamos cozinhar mais arroz e feijão e dividir com o Tio Sam!