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Desde 2001, o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos (PARA), coordenado pela Anvisa, monitora a presença de agrotóxicos em produtos agrícolas consumidos no Brasil. A divulgação do relatório do ciclo de 2024 valida um debate urgente: o quanto estamos expostos a agrotóxicos e como podemos reduzir o consumo de veneno?

Alimentos analisados em 2024

Entre 2023 e 2025, o PARA pretende analisar 36 alimentos, o que corresponde a cerca de 80% do consumo agrícola da população brasileira. No ciclo de 2024, os produtos selecionados foram abobrinha, aveia, banana, cebola, couve, laranja, maçã, mamão, milho, pepino, pera, soja, trigo e uva. No entanto, diversos itens comuns na alimentação, como abacate, abóbora, cacau, cana-de-açúcar, grão-de-bico, lentilha, vagem e rúcula, ficaram de fora das análises da Anvisa. Qual desses você come diariamente?

Os dados sobre agrotóxicos

Os relatórios do PARA utilizam linguagem técnica e apresentam dados complexos, o que dificulta a compreensão pelo público geral. Com isso, a interpretação acaba ficando restrita a especialistas ou a matérias jornalísticas, que muitas vezes não oferecem ao consumidor soluções para o problema.

Na prática, sabemos que há agrotóxicos nos alimentos, mas o que fazer quanto a isso? Como diminuir o consumo? Onde o risco é menor?

O que mostram os dados do PARA entre 2018 e 2024?

Ao avaliar os relatórios do PARA, observamos um cenário consistente de amostras insatisfatórias ao longo dos anos, apesar da última análise representar o menor número já registrado. Segundo a Anvisa, uma amostra é insatisfatória quando apresenta ao menos uma irregularidade, como:

  • Uso de ingrediente ativo não autorizado
  • Concentração de agrotóxicos acima do limite permitido

Especialmente para quem entende as consequências fisiológicas relativas ao consumo de agrotóxicos, a situação é preocupante. Após analisar os relatórios do PARA, conclui-se o óbvio: estamos comendo veneno.

Ano de análiseProduto agrícolaNº de amostras coletadas% de amostras insatisfatórias
2018–2019Pimentão19652,0%
2024Pepino21746,0%
2018–2019Tomate25544,7%
2024Laranja24039,0%
2018–2019Laranja26638,0%
2018–2019Uva23035,7%
2024Couve20435,0%
2018–2019Alface16134,2%
2018–2019Goiaba24031,2%
2024Abobrinha22331,0%
2018–2019Manga22929,7%
2024Uva23429,0%
2018–2019Abacaxi24827,8%
2022Trigo15227,63%
2024Maçã23527,0%
2024Pera25423,0%
2018–2019Cenoura25222,8%
2018–2019Chuchu25521,6%
2018–2019Beterraba23519,1%
2018–2019Alho25318,6%
2024Banana22217,0%
2024Mamão22115,0%
2018–2019Arroz32914,3%
2018–2019Batata-doce23612,3%
2024Cebola23810,0%
2024Aveia2419,0%
2024Milho2367,0%
2024Trigo2246,0%
2022Mandioca1512,65%
2024Soja852,0%
2022Feijão1500,67%
2022Batata1540,65%
2022Amendoim1010,0%
2022Café1580,0%

A Anvisa não publicou relatórios referentes aos anos de 2020 e 2021.

Outro ponto de atenção é o glifosato, um dos agrotóxicos mais utilizados no Brasil, classificado pela International Agency for Research on Cancer (IARC) como “provavelmente carcinogênico para humanos”.

Detecções de glifosato nas amostras analisadas do ciclo 2017-2018 ao ciclo 2023

No ciclo de 2024, 1.713 amostras foram analisadas e o glifosato foi detectado em 150 amostras, indicando aumento do uso desse ingrediente ativo.

Dirty Dozen e Clean Fifteen: um exemplo prático

O Environmental Working Group (EWG) divulga anualmente nos Estados Unidos as listas Dirty Dozen e Clean Fifteen. A lista é um guia amplamente utilizado por profissionais de saúde ao recomendarem a redução na ingestão de agrotóxicos. Em 2025, o guia classificou 47 alimentos:

  • 12 são classificados como os mais “sujos”, pois apresentam maior carga de agrotóxicos, e a recomendação é consumir orgânico.
  • 15 são considerados os mais “limpos”, com baixo nível de resíduos e podem ser consumidos com menor risco, mesmo quando convencionais.

As listas são atualizadas anualmente e funcionam como guia de compras. Essa iniciativa é um exemplo prático e simples que orienta a população e reduz o consumo de agrotóxicos.

Orgânicos são realmente mais caros?

Dados da Embrapa (Campinas) e do Boletim de Preços de Alimentos Orgânicos no Varejo de Florianópolis mostram que, no geral, feiras livres costumam oferecer preços mais acessíveis do que supermercados e lojas especializadas.

O que isso significa para o consumidor? Comprar orgânico pode ser viável, especialmente quando priorizamos feiras livres em vez de supermercados e escolhemos estrategicamente quais alimentos comprar orgânicos. Além do impacto positivo na saúde, essa escolha fortalece a economia local e reduz impactos ambientais.

Como reduzir o consumo de agrotóxicos no dia a dia?

Algumas escolhas podem fazer diferença:

  • Compre produtos agrícolas em feiras livres. O uso de agrotóxicos tende a ser menor em sistemas agrícolas locais e familiares, os quais comercializam produtos em feiras livres.

Comprar diretamente de produtores reduz intermediários, fortalece o comércio justo e envia um recado claro ao sistema alimentar: queremos alimentos mais saudáveis, frescos e sustentáveis. Nesse artigo eu falo um pouco mais sobre isso!

  • Informe-se com produtores sobre o cultivo dos produtos agrícolas. Produtos da estação também necessitam de menos agrotóxicos e contêm mais nutrientes.
  • Priorize alimentos orgânicos nos itens de maior risco, aqueles em que a porcentagem de amostras insatisfatórias é maior, como laranja, abacaxi e couve. Aqui a intenção é diminuir o consumo de agrotóxicos.

Além dos esforços práticos, que ajudam a melhorar sua alimentação no dia a dia, questione, pergunte, cobre, interesse-se pelo assunto e invista financeiramente no que traz mais benefícios à sua saúde. Políticas públicas e tendências entram em jogo quando há mobilização e interesse.